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Miguel Torga

Miguel Torga nasceu na aldeia de São Martinho de Anta (perto de Sabrosa, a terra natal de Fernão Magalhães) na estrada que liga o Porto a Bragança. Foi baptizado na fé católica romana como Adolfo Correia da Rocha, mas publicou só um livro sob esse nome, o seu primeiro volume de poemas entitulado, ominosamente, "Ansiedade" (Anxiety) em 1928. A partir de então adoptou o pseudónimo Miguel Torga - Miguel em honra de Cervantes, Unamuno e Montaigne. Torga , do dialecto local., é uma imagem particularmente apropriada para um homem de convicções inextirpáveis e arte rigorosa.
A sua educação em seminários Jesuítas fez dele um ateísta para o resto da vida. Muito jovem, foi afastado do seu 'maravilhoso reino' e mandado para o Brasil para um emprego mal pago na plantação de café de um tio. Quando voltou a Portugal, entrou para a venerável Escola de Medicina da Universidade de Coimbra, onde se licenciou em 1933, e começou a exercer na sua amada aldeia natal antes de mudar para Coimbra em 1940. Ao mesmo tempo, iniciou uma carreira literária muito activa, colaborando na revista avant-garde "Presença" até 1930, e fundando a revista libertária "Sinai" e a breve publicação política "Manifesto" (1936) em que expressou violenta oposição à onda crescente de fascismo na Europa. O seu extremo esquerdismo valeu-lhe a ira e o desfavor das autoridades, levando à proibição das suas obras e a vários períodos nas prisões do ditador Salazar. Ainda assim, ele continuou a sua missão médica, largamente pelos pobres e perseguidos, e prosseguiu escrevendo poesia, romances e contos que se tornaram clássicos. Por fim, escreveu em feroz independente solidão, rejeitando todos os grupos e salões literários de modo a preservar a sua liberdade intelectual e artística. A sua firmeza de propósito permeou todos os aspectos da sua vida de rectidão profissional, integridade e convicção artística. Declarou: Medecina é um dever, Literatura uma disciplina, e na verdade, dever e disciplina dão à sua obra uma coesão tremenda e monumental ecletismo. Com as suas feições ásperas mas atraentes geralmente rematadas por uma boina preta, referia-se a si mesmo como o monolito, às vezes qualificado de 'granítico'. Todavia, era um homem de gentileza e sensibilidade invulgares.
Torga produziu e pagou por (em ambos os sentidos) obras em prosa e pequenas colecções de poesia lírica e indomitamente individual, culminando nos "Poemas Ibéricos" de 1965. No entanto, também há poemas sobre as oferendas da terra - vinhos, pão, azeitonas, lã, linho. Toda a obra de Torga está profundamente enraízada na saúde, na terra e nas penhas de uma nação exilada na ponta da Europa. O seu amor e reverência pelo país onde nasceu são mais evidentes num trabalho em prosa extremamente imaginativo, "Portugal", um guia de viagem magistralmente anti-guia de viagem. E assim prossegue, um fluxo constante de diálogo fresco, expansivo e encantador que está entre a prosa mais pura que se escreveu. Está impregnada de um sentido universal de mistérios antigos e forças mitológicas que atravessam a vida rural e pastoril dos camponeses. Os seus soberbos contos exprimem com dramática intensidade a visão super-humana e a aspereza da vida da população rural. No sexto volume de "A Criação do Mundo" pode ler-se na epígrafe de Torga : 'O universal é o local sem limites. Ele escreveu para todos os homens'.
Miguel Torga tornou-se o patriarca das letras portuguesas. Recebeu o Grande Prémio Internacional de Poesia em 1976, e o Prémio Camões em 1982. Em 1992, foi homenageado pela França com o Prémio Esquirol da literatura estrangeira. O Jornal de Coimbra referiu orgulhosamente a presença na cerimónia do presidente Mário Soares que presenteou Torga com edições raras de Montaigne, Montesquieu e a primeira edição portuguesa de Don Quixote com gravuras de Gustave Doré. Jorge Amado veio do Brasil para lhe prestar tributo, declarando : 'É um escândalo que nunca tenha havido um galardoado de Portugal com o Prémio Nobel (da Literatura). Esse prémio deveria ser para Miguel Torga'.
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